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30 de Maio
Hoje fui com uma amiga ver os petroglífos na Pedra Letreira e nas Mestras. Para aqueles que não estão familiares com este termo quero explicar que os petroglífos são antigos vestígios e símbolos gravados na face de uma pedra ou rocha (Arte Rupestre). São conhecidos vários exemplos desta arte na região, mas não é fácil encontrá-los, mesmo se os encontrou uma vez não quer dizer que os encontra uma segunda! Felizmente não tivemos dificuldade a chegar aos petroglífos da Pedra Letreira. A chuva abrandou quando chegamos e as nuvens à volta fumegavam dos montes abaixo e o vale abriu-se em nossa frente. A Pedra Letreira é um planalto de pedra que sobressai de uma formação rochosa na encosta. É um lugar bonito e intenso que nos inspira de admirar a vista soberba para Oeste. Os símbolos gravados na rocha são abundantes e claramente visíveis e provavelmente as pessoas, há milhares de anos, passaram horas neste lugar e revisitaram-no frequentemente. Passando os dedos por cima das ranhuras, criadas há um tempo tão distante, deixa-nos sentir um profundo respeito e é no mesmo tempo tentador – é impossível não querer saber o que estes símbolos significam. De algumas obras que vi da antiga cultura da veneração das deusas da Europa, juntadas por Marija Gimbutas*, fiz as minhas próprias ideias, mas talvez deva ficar contente de nunca saber isto ao certo.
Quando chegou a altura de encontrar os petroglífos das mestras o assunto já não foi tão fácil. Havendo visitado as pedras no Setembro passado, pensei que ia ser relativamente fácil de os encontrar de novo, mas estando em cima no cume por baixo do zumbido dos braços das eólicas, pareceu-me praticamente impossível distinguir qual destas rochas salientas contenham a pedra com os símbolos misteriosos. Trepámos encosta acima e encosta abaixo, tropeçando por cima de tojeiros e mato e apenas pausando para apreciar as vistas tremendas à nossa volta – Dá nos o sentimento de nos encontrar no cimo do tecto do mundo aqui – e estávamos quase a desistir, quando finalmente encontrámos aquilo de que estávamos a procura. Os símbolos parecerem muito menos definidos de que quando os tinha visto pela primeira vez nos raios de sol inclinados da tarde, mas eles estavam inegavelmente ali – os círculos divididos em quartos gravados na pedra. Assim sentámo-nos um pouco e admirámos as formações de nuvens que mudavam de figura por cima dos montes e imaginámos como isto teria sido para estas pessoas que se tinham sentado aqui há tanto tempo antes de nós e aqui deixaram as suas marcas.
Mais tarde, quando estávamos a conduzir ao longo do cume numa aberta de sol, observámos um arco-íris reluzente, estendendo-se por cima dos montes. E durante o tempo que estou escrevendo isto, vejo o nevoeiro encher o vale por baixo do pôr-do-sol – bastante estranho, mas muito atmosférico. Isto não é o tempo que esperávamos encontrar no final de Maio, mas parece que é como em qualquer outro sítio, tempo previsível em Portugal Central é uma coisa do passado.
*Marija Gimbutas – ‘The Language of the Goddess’ (Thames and Hudson) 1989
27 de Maio
Num passeio a pé, alguns minutos da nossa casa, encontra-se uma clareira com socalcos na floresta – um lugar mágico onde crescem castanheiros e oliveiras e toda esta visão é acompanhada pelo canto dos pássaros e o zumbir dos insectos. Hoje, sentada por baixo da velha oliveira, apanhei-me a meditar sobre o nosso intento e objectivo de estar aqui em Portugal e o que nos motiva de viver e trabalhar aqui. Pensando nestas coisas também estava a olhar fixamente para os líquen e musgos encantadores que cresceram na casca da oliveira, algumas espécies que nunca tinha visto antes. Eu sei que os líquenes são sinais da pureza do ar, assim certamente tamanha complexidade e variedade de espécies como aqui deve crer-nos indicar que isto é um raro e não poluído canto da Europa de Oeste.
Quando o Richard e a Anna estão na visita das aldeias, tirando fotografias e documentando as histórias e contos sociais que de outro modo morreriam com esta geração, encontram comunidades em mudança – o velho modo de vida está a desaparecer mas com o aproveitamento das infra-estruturas de comunicação do século XXI espera-se agora para a chegada de pessoas que trazem visões, optimismo e energia para o futuro. As pessoas aqui têm tanto para oferecer, com a sua sabedoria acerca das terras e seu cultivo, que eles praticaram tão afectivamente e eficazmente durante inúmeras gerações. Mas para que as suas aldeias possam sobreviver e florir, necessitam que venham pessoas para ai viverem, trazendo as suas perícias e sonhos, construindo as suas vidas e deixarem crescer os seus filhos ai.
Se de alguma forma poderíamos ser o instrumento para juntar esta bonita e fértil terra, as pessoas que aqui viveram e dela trataram desde séculos e a paixão e visão de futuros habitantes que chegam e que se preocupam para com o futuro, nesta altura posso considerar que o esforço valeu a pena e vou ser muito agradecida para poder tido a oportunidade de ter participado neste trabalho. Eu realmente acredito que esta área é um tesouro a espera de ser encontrado – uma terra que precisa de gente que cuida dela e que ajude a criar este tipo de comunidades sustentáveis que este planeta tão desesperadamente necessita, agora que estamos a chegar ao fim da era dos combustíveis fosseis, as mudanças serão inevitáveis.
23 de Maio
A razão para o longo intervalo entre as novas entradas no meu Blog deve-se a uma visita à Inglaterra que durou alguns dias. Estava a espera de sentir um grande choque de temperatura, mas na verdade na chegada a Liverpool estava mais quente do que estava na saída do Porto! Desde que regressei fizemos a experiência de alguns fortes aguaceiros e pelo menos um aldeão já se lamentou preocupado com o destino das oliveiras, que agora estão a começar a florir. Não é normal a temperatura estar tão baixa no mês de Maio como tem estado até agora, (por volta de 17°) e também não o tempo tão chuvoso – a última vez, como parece, foi há 11 anos. Mas o Verão deve estar mesmo a porta, porque hoje reparei que a esplanada fluvial está a ser montada – um sinal certo que o sol está para vir.
Ontem foi o Feriado Católico de Corpo de Deus e por volta das 4 de tarde viam-se muitas pessoas a dirigirem-se para a sua Igreja local. Em Vila Nova do Ceira ‘estendeu-se’ um tapete de flores à volta da vila – um caminho estreito de areia com folhas verdes a marcar os limites de cada lado, com um ziguezague de pétalas de rosas e folhas no meio. Isto foi com certeza um grande trabalho, feito com muito amor e dedicação, já que o caminho se serpenteia várias centenas de metros da Igreja ao longo das estradas da pequena vila. As 5 da tarde emergiu uma procissão da Igreja, dirigida por três homens que carregavam um pálio, o homem do centro pisou o caminho com rosas espalhadas e a congregação segui-lhe atrás. Embora eu pensasse que tinha tropeçado numa velha tradição local, foi me dito que na Vila Nova do Ceira só começaram a estender um ‘tapete’ nos últimos cinco anos – aparentemente é uma tradição muito grande no Brasil!
Durante a minha ausência na semana passada, realizou-se a cerimónia anual para comemorar os Combatentes do Ultramar nas guerras na África nos anos 1960. Dezasseis homens locais morreram nos combates e os sobreviventes juntam-se todos os anos para reunir-se e honrar os que perderam a vida. A escultura memorial perto da escola em Góis carrega agora os nomes daqueles que morreram.
11 de Maio
Hoje foi um dia importante no calendário da nossa aldeia – a organização de um torneio de Jogo da Malha, com um almoço de convívio precedente na Casa do Convívio. Tendo nós recebidos vários convites para tomar parte no almoço, fomos com entusiasmo para ali, mesmo sendo a nossa conversação em Português ainda muito limitada e não estando habituados a comer grande coisa na hora de almoço. Apesar destas limitações encontrámo-nos muito bem-vindos e sentados ao longo de uma das várias grandes mesas na Casa do Convívio. As mesas estavam lindamente arranjadas e postas com fruta, pão e vinho e travessas de porcelana, colocadas perto de cada um, para que toda a gente se possa servir da sopa de entrada. A partir daqui começámos a encher-nos com a boa cozinha tradicional e caseira: o famoso Caldo Verde, a seguir carne com feijão e arroz, seguido por arroz doce, fruta fresca e bolos e tudo isto empurrado com vinho em fartura e para acabar, um forte café preto.
Sentíamo-nos tão cheios que mal nos conseguíamos mexer, mas finalmente conseguimos cambalear pelo monte onde os homens da aldeia e alguns vindos de fora estavam espantosamente activos a aquecerem-se para o torneio. Para todos que não estão familiares com este jogo seja dito que o "Jogo da Malha" é um jogo popular e tradicionalmente Português onde se manda uma malha (pesado disco de metal) de 10.5 cm contra um pau de madeira (chinquilho) com alguns 20 m de distância. Isto é um passatempo estritamente e apenas para os homens, considerado que é uma verdadeira amostra de virilidade e o povo masculino da aldeia pode ser visto todos os Domingos a tarde a treinar na área da festa. Isto é naturalmente levado muito a sério e a concorrência é feroz. Ficámos muito impressionados com a precisão de lance e muito gratos também, já que um disco chega a ter um peso de 600 g e é lançado com bastante força! Ao Richard foi perguntado se poderia tirar algumas fotografias do evento e você pode clicar aqui para ver uma selecção delas.
A tarde descemos novamente à Casa do Convívio com algumas impressões da presentação dos troféus e um CD com os destaques – e sem nos apercebermos, estávamos novamente em frente de uma repetição do almoço, numa companhia agradável, com mais um pouco de vinho! À nossa volta as mulheres da aldeia estavam a acabar de lavar a loiça e de limpar – foi realmente um esforço grande e muito trabalho da parte delas de cozinhar para tanta gente e desejaríamos ter tido o adequado domínio da língua para poder exprimir a nossa gratidão e o nosso reconhecimento para isto tudo. Reunidos à volta do Computador Portátil, os participantes do Jogo da Malha divertiam-se, vendo-se em variadas posições do evento da tarde!
10 de Maio
Acordámos esta manhã com o canto extraordinário dos pássaros – alguns sons conseguem-se distinguir entre outros, como o do melro, o do Chapim-real e o arrulhar da Rola-comum e algum gorjear mais exótico de um pássaro que ainda não identificamos. É uma maneira bonita de começar o dia, estar deitado na cama com a janela aberta e ouvir o canto em coro.
Hoje fui mais as minhas filhas dar um passeio a cavalo com a Sandra, que oferece férias de equitação em Góis. É uma nova experiência para as filhas de andar a cavalo por fora do recinto e estão a descobrir o prazer de ver o mundo de cima das costas de um cavalo e que pode leva-nos por caminhos e carreiros que de outro modo nunca iríamos descobrir, abrindo assim uma vista completamente nova para a paisagem e o campo. Passámos por uma pequena aldeia abandonada, ainda rodeada de árvores de fruto que foram cultivadas aqui há mais ou menos 10 anos. Infelizmente os eucaliptos invadiram, aproveitaram a nascente de água da aldeia e secaram-na e os habitantes deixaram a povoação. No entanto ainda crescem laranjas e forneceram-nos um alimento bem-vindo quando os cavalos pararam para comer um pouco de relva.
Nesta altura paira por todo lado um aroma maravilhoso de ervas e flores no ar. Ao virar da esquina no caminho equestre, fomos surpreendidas pela fragrância de rosas, vindo de arbustos de flores selvagens que crescem ao longo da estrada. Selvagem Lavanda Francesa floresce ao longo das bordas e a Erva-doce está a crescer alto – o aroma de Hortelã liberta-se quando é pisada pelos pés.
Também na vila e nas aldeias sente-se o odor de rosas no ar, estando estas a florir em abundância em qualquer sítio que se vai. Demoro mais tempo agora para caminhar pela estrada, porque sento-me obrigada a parar e dar a devida atenção a todos os deleites e encantos que me rodeiam – Sinto-me privilegiada por poder dedicar um pouco de tempo a sentir o aroma das rosas!
Noutro dia aconteceu uma coisa encantadora num café, quando uma mulher, já de certa idade, se aproximou onde eu estava sentada mais a minha filha mais nova e lhe ofereceu um ramo de rosas cor-de-rosa, com um aroma incrível e dando-lhe um beijo na testa, disse-lhe que ela era linda. Isto é a vida do dia-a-dia em Portugal Central.
6 de Maio
Hoje andámos a procura de uma aldeia ‘perdida’. O nome aparece numa lista das aldeias do Concelho e até tem um próprio código postal mas ninguém a quem perguntámos (nem o carteiro) parecia alguma vez ter ouvido desta aldeia! Finalmente alguém nos disse numa aldeia que fica perto e ali o Presidente da Comissão de Melhoramentos indicou-nos como aí chegar (embora ele já lá não tinha ido desde a sua infância). Revelou-se que a aldeia se encontra abandonada há mais ou menos 20 anos, embora estradas florestais permitam o acesso a esta. Já fizemos uma tentativa de a encontrar e falhámos e começámos a pensar que talvez seja completamente imaginária. Na nossa segunda tentativa, quando caminhámos pela estrada abaixo, saltou um veado à nossa frente, mas de resto tudo era muito calmo e pacífico. Chegámos até junto ao rio com um pouco de trepar e escalar por cima de pedras e mato, disturbando uma lontra que se mandou para dentro da água e desapareceu, apenas deixando uma pegada na lama. Neste ponto, a Anna e eu sentámo-nos para apreciar a vista e deixámos o Richard mais a sua câmara fotográfica avançar rio abaixo para procurar e encontrar o velho moinho. Meia hora depois ele reapareceu, com um aspecto arranhado e suado, tendo ele lutado e ganhado o seu caminho vitoriosamente contra as silvas para capturar o seu preço! Até agora já trepou por cima de árvores e andou de botas de pesca enfiado na água quase até ao pescoço por um rio abaixo para conseguir a desejada fotografia, mas hoje foi a primeira vez que teve de lutar contra tal densa vegetação. Refrescou-se no rio e a água neste ponto é tão limpa que pode ser bebida, vindo esta directamente da montanha. Quando começámos o nosso regresso pela encosta acima, passámos por uma grande casa caída, tão coberta de heras que anteriormente não a tínhamos visto. Com um pouco de imaginação foi possível encarar como a vida devia ter sido aqui em baixo, neste vale pacífico, quando as mulheres iam e vinham pela encosta para o moinho, carregadas com cestas de milho nas suas cabeças e regressando com a broa cozida. Tudo o que eu penso neste momento é que elas deviam ter tido músculos de barriga da perna muito melhores do que eu – ou como a sogra da Anna costuma dizer:”Para baixo todos os Santos ajudam, para cima só um – e ainda por cima é coxo!”
1 de Maio
Como em muitos países da Europa hoje é Feriado Nacional. Em Portugal, os Feriados são celebrados de acordo com a data, não com o dia da semana e assim isto é um prazer para as crianças de não haver escola numa Quinta-feira – mas se o Feriado por acaso calhar a um Domingo elas sentem-se enganadas!
Em Góis estava um verdadeiro dia de Maio – com um céu brilhante azul, inchadas nuvens brancas, sol quente e tudo à volta começou subitamente a ter vida. Demos uma volta de bicicleta até a aldeia próxima, onde nos foi contado que hoje era o dia das cobras. Há um velho ditado em Portugal que não se deve levar lenha para casa no dia 1 de Maio, porque se o fizer, virão cobras juntamente. Isto é a altura em que as cobras após o Inverno acordam da hibernação e começam a procurar qualquer sítio quente e abrigado. Ainda não vimos nenhuma este ano, mas há muitos lagartos a mexerem-se desta sua maneira própria ao sol e encontramos também alguns Licranços e Chalcides (Réptil escamado)! As Esperanças também estão activas agora, cricrilando constantemente e ritmicamente no fundo, um mensageiro dos dias de Verão que estão à porta.
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