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29 de Novembro
Chegámos ao fim de Novembro e temos cá um tempo! Embalados numa falsa sensação de segurança de semanas de céu azul sem nuvens quase seguidas, foi algum choque quando tivemos descobrir que aqui o Inverno também se pode fazer sentir. Hoje tivemos um pouco de tudo – quando abrimos as cortinas esta manhã, fomos cumprimentados por um grande arco-íris que se estendeu pelo vale abaixo. Dentro de poucos minutos houve um raio de luz e um estrondo de trovão e depois fomos bombardeados de granizo – muito pelo divertimento das nossas filhas que foram para fora dançar por baixo das pedrinhas de gelo! Mais tarde nesta manhã, quando fomos de carro para Góis, vimos um ligeiro salpico de neve no pico triangular da Peneda, e chegou-nos o boato aos ouvidos que alguns flocos até teriam caído mesmo em Góis. É nestas alturas que me sinto muito agradecida pela nossa lareira e todos os radiadores que trabalham para manter a nossa casa quente e confortável. Muitas casas portuguesas não têm qualquer sistema de aquecimento – será que o clima antigamente era mais quente? Mas talvez as pessoas simplesmente não tinham dinheiro suficiente para o luxo de aquecimento. Fiquei espantada quando me foi dito que a velha escola secundária em Góis não era aquecida durante o Inverno – passando apenas duas horas no edifício das minhas aulas de português num dia destes, não conseguiu perceber como seria possível alguém se poder concentrar muito tempo em tais temperaturas. Mas ainda pior, a nossa professora de português contou-nos que algumas crianças mais pobres, como por exemplo a sua própria mãe, iam à escola descalças, mesmo nos meses de Inverno. Até me arrepio de pensar nestas dificuldades, ainda mais para crianças, pelas quais a escola em si já era uma provação. O meu problema consiste em convencer as minhas filhas que a temperatura está perto do congelamento lá fora e que deviam levar casacos quentes – elas parecem ainda não querer acreditar que agora faz mesmo frio em Portugal!
18 de Novembro
Se sempre teve curiosidade em saber como o azeite é extraído daqueles pequenos e duros frutos, uma visita a um lagar é uma experiência muito interessante. Hoje fomos chamados para o lagar da Cooperativa de Vila Nova do Ceira que trabalha várias semanas durante o ano, na altura da colheita das azeitonas locais. Vimos, como primeiro as azeitonas foram limpas, depois esmagadas antes de passarem por uma centrifugadora para extrair o azeite da primeira prensa fria. Todo o equipamento reluzia e o inteiro processo parecia rápido e eficaz. As pessoas locais trazem as suas azeitonas em sacos, caixas e sacos de plástico para o lagar – o conteúdo é pesado e eles recebem de volta um montante equivalente de azeite, menos uma percentagem como pagamento à Cooperativa. Mas havia tempos, ainda bem recentes, onde tudo era talvez um pouco menos eficaz e dependia um pouco mais da experiência da comunidade. Foi nos dado a oportunidade de irmos para as traseiras para ver o velho lagar, agora com algumas teias de aranha e inutilizado, onde a enorme prensa hidráulica de ferro fundido está parada. Há um plano de remodelar este velho lagar e pô-lo a trabalhar como peça de museu – um projecto, que na minha opinião, realmente valia a pena, porque as azeitonas sempre tiveram um papel importante na vida das pessoas desta região. Deixámos o lagar com o cheiro de azeitonas nas nossas narinas, carregando uma garrafa de cinco litros de azeite do ano passado – muito contentes de ter mais um produto local para levar para casa e saborear.
13 de Novembro
Já estamos quase no meio de Novembro e ainda gozamos dias agradáveis de sol. Esta noite é lua cheia e esta manhã, e de manhã quando me levantei às 7 horas, abri a janela do quarto e vi uma enorme lua redonda, deitada num lago de nevoeiro. Pouco a pouco o nevoeiro desfez-se e por volta das 8 horas vimos as nuvens a moverem-se vale a baixo quando o nosso céu já estava de um azul profundo. Como a terra agora está húmida, o que faz parte do Outono, encontrámos alguns fungos interessantes de todas as formas, tamanhos e cores, que cresceram nas florestas, nas matas e junto às sebes. Ao mesmo tempo há muitas árvores carregadas de fruto, incluindo laranjas, tangerinas, romãs e dióspiros – os últimos ficaram pendurados como ornamentos de natal depois de as folhas terem caído.
Acabámos mesmo agora as nossas páginas do Website para a freguesia de Vila Nova do Ceira, incluindo uma página com histórias e memórias encantadoras sobre a vida na aldeia, contadas por Maria Adelina, uma mulher cega que toda a sua vida viveu na região (tirando os anos de escola em Lisboa). Se gosta de ler, como as pessoas costumavam viver nas aldeias, vai adorar esta página!
3 de Novembro
Estas últimas semanas tivemos muito prazer em observar os disparates que os pássaros faziam por fora da nossa janela do escritório quando estavam entretidos a arrancar as sementes dos velhos girassóis (os mesmos girassóis que durante o Verão atingiram uma altura tão estupenda). Particularmente os verdelhões têm um tempo maravilhoso, brigando por cima deles e isto pode ser muito divertido. De vez em quando juntam-se chapim-carvoeiros e ocasionalmente vem um pisco-de-peito-ruivo para ver o que se passa, mas é o verdelhão que quase completou a tarefa de reduzir as cabeças do girassol em cascas vazias.
2 de Novembro
Quando na sexta-feira me encontrei com uma mulher já de uma certa idade da minha aldeia que descia o monte carregando um grande ramo de crisântemos amarelos, surgiu-me uma memória de qualquer coisa que tinha lido acerca do dia de todos os Santos. Toda a gente conhece Helloween e muita gente já ouviu falar da festa céltica de Samhain nesta altura do ano, e ouvi alguma coisa acerca do ‘dia dos mortos’ no México que presumivelmente foi importado pelos espanhóis. Mas não realizei que aqui em Portugal o primeiro de Novembro é celebrado por famílias que visitamos cemitérios e cuidam das campas dos familiares falecidos, limpando e esfregando-as e cobrindo-as com flores frescas, particularmente crisântemos amarelos e brancos (uma flor sagrada originalmente do oriente). Fomos até ao cemitério junto à Igreja Matriz de Góis onde tudo estava a fervilhar de actividade. O ambiente era quase festivo quando as famílias trabalhavam em conjunto decorando as campas e o efeito de todas estas flores fazia certamente com que este lugar, que normalmente acho bastante desanimador, tivesse a sua beleza. Talvez a coisa mais interessante a observar foi que muitos dos jazigos tinham a porta aberta, com flores e velas na entrada. Na Grã-Bretanha perdemos o uso, se alguma vez o tivemos, de passar tempo com a morte. Fiquei impressionada e agradavelmente surpreendida como isto aqui parecia uma actividade tão afirmativa da vida.
Depois da nossa visita no cemitério seguimos até a ‘Feira do Mel e da Castanha’ que se realiza anualmente em Góis como em muitos outros sítios do Centro de Portugal onde o castanheiro tem sido uma parte tão importante da vida. Como o nome já sugere, a feira é uma celebração dos produtos locais, tanto de comida como de artesanato e oferece uma grande oportunidade de provar o vinho novo, a jeropiga e a ginja! Gosto muito do ambiente nesta feira que é uma ocasião única onde as pessoas se juntam para desfrutarem da última grande reunião ao ar livre antes que chega o Inverno. No final da tarde, depois dos ranchos folclóricos dançarem e o sol se pousa, paira um definido frio no ar e a caruma é espalhada no chão e é acesa para o magusto. Isto é o assar tradicional das castanhas e quando estão prontas toda a gente se atira para apanhar a sua parte, fazendo malabarismo com as castanhas quentes para tentar não queimar os dedos. O costume é o de besuntar o seu vizinho com as suas mãos pretas – provavelmente poderia significar que isto traz sorte, como beijar um limpa-chaminés – em todo o caso é divertido!
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