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24 de Setembro
Na semana passada a nossa vida tem sido muito excitada e atarefada porque registámos oficialmente a nossa empresa de mediação imobiliária Goispro – Mediação Imobiliária, Lda. Agora só temos de concluir mais alguns procedimento oficiais e vamos ser inteiramente licenciados e prontos para começar a trabalhar! No meio de toda esta actividade frenética de criar a empresa é sempre um alívio tirar um pouco de tempo e retirar-se para o jardim e deixar que a calma tranquilidade da paisagem se apodere de nós. Depois de anos a viver nos mais nórdicos climas da Grã-bretanha é espantoso chegar ao equinócio de Outono e ainda sentir temperaturas agradáveis, ter borboletas a voarem à volta e preparar a terra para plantas que crescem durante a estação de Inverno mesmo que ainda estejamos a apanhar tomates, pepinos e abóboras. Quando estávamos a lavrar a terra, fomos acompanhados pelo toque dos sinos que dão as horas e meias horas em todo o vale. A melodia é, como penso, uma estrofe de um hino e parece ser comum em todo o lado da região e talvez no país inteiro. Aldeias onde havia fábricas ou minas por perto – todos os locais de emprego que precisavam que os seus trabalhadores chegassem a hora - tinham relógios e sinos para indicar a hora e provavelmente chegaram a ser um símbolo de riqueza tê-los. Da nossa casa ouvimos claramente o som dos sinos que vem do outro lado do vale e nalguns dias se o vento estiver na direcção certa podemos ouvir o toque de até quatro torres tocando em intervalos ligeiramente diferentes e ficando progressivamente mais fraco. É uma parte do ritmo da vida aqui, não incómodo, mas animador e tranquilizante – Gostava de poder mandar isto para vós!
19 de Setembro
Chegou a altura da colheita do milho. Esta região tem uma longa história de produção de milho que ainda é cultivado nos campos e nos socalcos à volta das aldeias, particularmente nos terrenos férteis na baixa do vale do Ceira mas também em qualquer cantinho de terra mais plana que tenha sol. Por baixo da nossa casa encontra-se um destes cantinhos, bem regado pela água da fonte e vimos como o cereal rebentou, cresceu e amadureceu até esta semana, quando um grande monte de espigas apareceu no pequeno largo. Como mencionei na minha última entrada no Blog, a escapelada do milho é tradicionalmente um acontecimento que envolve toda a aldeia e os membros da nossa povoação e muitas outras ainda se juntam para participar neste ritual, sentados em roda à volta do monte de espigas de milho. Outrora, a pessoa a quem pertencia o milho, oferecia muitas vezes comida e bebida e brincava-se e contavam-se muitas histórias. As escapeladas eram seguidas por uma festa com música e baile – as colheitas são uma boa desculpa para fazer uma festa! Fazia-se nesta altura um jogo tradicional muito popular, conhecido como ‘Chí’ ou ‘Xí’ nas aldeias à volta de Vila Nova do Ceira, que era relacionado com as espigas de milho. A espiga escura era nalgumas aldeias conhecida como ‘espiga rainha’ e em outras como ‘espiga rei’ ou ‘espiga mulata’. Cada um que encontrava uma espiga escura tinha dar à volta e abraçar todos os membros do grupo. É fácil perceber que com estas oportunidades de mais aproximação surgiram também alguns casamentos e isto era mais uma razão porque as pessoas tanto gostavam estar presentes nestas escapeladas – vimos uma mulher de 80 anos que ainda corou ao lembrar-se! Se podia escolher, preferia participar numa destas ‘festas de escapelada’ da aldeia que numa forma de entretenimento mais ‘sofisticado’ – como parece estas ocasiões eram sempre muito divertidas!
12 de Setembro
Esta semana, os pais em todo Portugal deixam escapar um grande suspiro de alívio comum; depois de três meses de férias, as crianças podem finalmente voltar para a escola. Pessoas habituadas ao sistema britânico, podem achar difícil acreditar que não sabemos quando as nossas crianças vão recomeçar a escola depois das férias de Verão até poucos dias antes, quando recebemos uma carta por correio ou vimos um panfleto pendurado no supermercado local, depende qual for o primeiro a aparecer. Mesmo ali ainda não se trata de uma data de começo concreta. Primeiro há uma reunião para os pais ou encarregados de educação. Depois, um dia ou assim mais tarde, pode haver um dia ou meio-dia de escola no qual nada acontece, até que a escola finalmente inicia a sério. Algumas vezes pode demorar várias semanas até que todos os postos são ocupados pelos professores, porque de rotina estes mudam constantemente em vez de terem um posto permanente numa escola particular. Alguns pais lembram com horror o ano que a escola não começou até meados de Outubro, dando assim aos alunos umas férias de Verão de quase 4 meses! Este ano há problemas com a edição de livros de escola estandardizados para as crianças mais jovens, que pode levar à situação de terem de utilizar livros do ano passado durante umas poucas semanas. Mais cedo ou mais tarde tudo se vai tratar e quando o trabalho começar nas salas de aulas vai ser ininterruptamente até ao Natal.
Claro, o regresso à escola também sempre marca o final do Verão e paira definitivamente já um indício de Outono no ar. As manhãs agora estão muito frescas antes que o sol se levanta, embora no final da manhã a temperatura ainda pode subir até meados dos 20ºC. Lá em baixo, na esplanada, juntam-se as folhas caídas das árvores e as mesas estão a esvaziar-se – brevemente a esplanada vai ser desmanchada e arrumada até ao próximo Verão. Mas cada estação tem a sua recompensa – estamos na colheita do milho e nalgumas aldeias as pessoas ainda se juntam para escapelar as espigas como já se vez há gerações. As uvas e os figos estão a ficar maduros e esperamos que as castanhas fiquem prontas para o magusto em Novembro quando a roda do ano continua a girar.
5 de Setembro
Hoje chegou a chuva! De repente fomos engolidos por uma enorme nuvem cinzenta que despejou a sua água em cima de nós. Dá a sensação que o Verão acabou, quando nos juntamos dentro do coberto para observar o aguaceiro de uma distância segura e seca. Aqueles que não tinham escolha e tinham de se aventurar para fora, fizeram-no sob a protecção de um guarda-chuva – ao menos a chuva aqui cai razoavelmente vertical e o guarda-chuva não se vira tão facilmente par o lado contrário. Os portugueses levam os seus guarda-chuvas muito a sério – cada loja e café tem um bengaleiro perto da porta para dias como este. Não é muito usual ver variedades mais discretas de guarda chuvas telescópicos nestes meios – os residentes de Góis favorecem o modelo mais substancial, de preferência com a maçaneta em madeira que pode ser pendurado no braço, ou mesmo se for um homem que precisa ter as mãos e os braços livres, à trás do colarinho do seu casaco!
Mas a chuva é bem-vinda por uma razão – o solo ficou tão seco que nuvens de pó se levantavam como fumo da nossa estrada de acesso e o jardim estava ressequido apesar dos nossos maiores esforços de regar com a mangueira. É bom ver que a terra se encharcou de água e saber que isto também ajuda a repor as águas dos rios e fontes das quais esta região depende. Sabemos que o sol vai voltar num ou dois dias!
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